Transiberiana movida a álcool

WORD-TremTrem

“Oi, eu sou o Neil, o seu companheiro de cabine”, disse uma voz gutural na porta do nosso compartimento para quatro pessoas, interrompida por uns soluços. “Sorry, vocês não têm opção.” Garrafas de vinho (chinês) na mão, sorriso Monalisa no rosto e um olhar perdido de quem olha mas não vê, o escocês Neil, como um bom representante da raça, se apresentava assim, vindo direto da noite anterior. Bêbado, óbvio. Em poucos segundos nossa cabine era o lugar mais animado do K 23, o trem que nos levaria de Pequim a Ulan Bator, a capital da Mongólia, pelas míticas linhas da ferrovia Transiberiana. Holandeses, franceses, mongóis… todos os convidados do Neil (e nossos, por tabela) se espremiam nas camas que nos abrigariam pelas próximas 30 horas, caneca transbordando vinho (chinês) nas mãos. Eram apenas 7h da manhã e o trem ainda estava parado na estação. “Ignorem os relógios, o tempo é muito relativo”, profetizava Neil. “Que horas são no Brasil, por exemplo? Pronto, já têm o componente psicológico resolvido. Posso servir mais um pouquinho?”

WORD-TremNeil

Às 7h45 em ponto o trem apitou e Pequim foi ficando para trás. Em poucos minutos já estávamos cortando as imponentes montanhas ao norte da capital, com um vento frio entrando pela janela. Depois de dizer que todos os seus problemas recentes se resumiam em “não ver Cristo” (tanto no Rio quanto na Cidade do Cabo quanto numa cidadezinha do interior da China, três destinos da sua longa viagem que dura dois anos e meio e ainda não tem data para acabar, os dias estavam tão nublados a ponto de não se enxergar um palmo na frente), Neil apagou. E aos poucos a festa foi se dissipando. Era hora de mergulhar nas planícies sem fim do norte da China. As tempestades de areia eram cada vez mais frequentes. Lá na frente a locomotiva amarela puxava os longos vagões verdes fazendo curvas suaves e envolvendo tudo num pó dourado. A Mongólia estava cada vez mais perto (e o Neil, roncando cada vez mais profundamente).

WORD-TremTrilho

Já era noite cerrada quando chegamos na fronteira. Dois carimbos no passaporte, troca de vagão restaurante, troca de trilhos – ainda hoje as linhas são diferentes nos dois países, e toda a parte de baixo dos vagões precisa ganhar novas rodas para só então poder singrar pelas estepes da Mongólia. Depois de 10 horas de sono, Neil acordou com os solavancos. E a cerveja no nosso quarto – quente – durou até as 3h.

WORD-TremPaisagem

No dia seguinte, a página dupla inteira dedicada às vodcas no menu do novo restaurante, ao lado das opções de café da manhã, eram a prova maior de que a Rússia já estava logo ali, um pouco além daquela imensidão agora povoada por antílopes selvagens, iaques peludos e os primeiros gers (as casas nômades da Mongólia, sempre redondas e brancas). Aquela imensidão que era, agora, o nosso destino. (Rachel)

Anúncios

~ por amnasianow em julho 20, 2009.

5 Respostas to “Transiberiana movida a álcool”

  1. Gente, o Neil TINHA que dividir cabine com vcs, né? Comigo nunca ia acontecer rsrs

  2. É Quel,como diria sua vó “um gambá cheira o outro…”Explique ao Marco!

  3. Olha, vou concordar com a Fuca, esse texto mega comportado parece que vcs são uns santos, antropólogos, imparciais ahahaah…. se liga, Rachels, we know you! Não foi a toa que ele foi parar nesse vagão. Coincidências não existem 🙂 Love you, Mari

  4. Uau! Que lugares. E que fotos! Consigo imaginar-me facilmente no trem dos novos amigos vermelhos de Neil. Saudade

  5. o neil é um bom camarada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: