Comida, comida, comida – round 1

A primeira coisa que me ocorreu ao chegar ao Vietnã foi lembrar da guerra. A segunda, tomar contato com a comida. A terceira foi pensar de quem foi a idéia de bombardear um país onde se come tão bem. Mas os vietnamitas não demonstram mágoa, e assim parecem mostrar quem eram os maus da fita. É impossível perceber em cada rosto que num passado tão recente caíram mais bombas naquela faixa de terra do que em toda a Segunda Guerra Mundial, além de outras atrocidades ainda maiores. Estão na fila para o troféu simpatia da viagem. São calorosos, simpáticos, sorridentes e sua comida é um capítulo a parte. Nossa primeira experiência foi num beco escuro no centro de Hoi An. As mesinhas colocadas do lado de fora estavam cheias, eram todos locais. Não se pode dizer que estavam sentados, porque as mesas mais baixas do mundo têm também as cadeiras mais baixas do mundo, e deixavam todos numa posição de cócoras. Preferimos arriscar do lado de dentro onde sentamos em confortáveis cadeirinhas de plástico para crianças. A mesa para cinco (o Vietnã foi feito pela quadrilha de Bangkok) era apertada, mas o clima de boteco era perfeito. Mal sentamos, ou agachamos, e os pratos começaram a descer. Nada de cardápio. O conceito é: você veio aqui para comer? Então deixa que eu trago a comida.

 

chapeusverde

 

Primeiro chegaram umas folhas secas quase transparentes feitas de arroz. Depois uns tempuras de legumes que foram imediatamente atacados. Mrs. Mai, a dona do lugar, garçonete e animadora de auditório, fez o sinal de que ainda não. Chegou em seguida uma pilha com espetinhos de carne. Mais uma intenção e outro ataque reprimido. Finalmente uma espécie de panqueca amarela, aparentemente de ovo (mas depois descobrimos que era de arroz), e o cardápio estava fechado. Mesa completa, Mrs. Mai se aproxima e ensina o truque. Abre a tal folha seca transparente na mão e coloca um pouco de tudo ali. Com habilidade enrola como se fosse um charuto, mergulha num molho de peixe adocicado e enfia na minha boca sem chances de apelação. Mrs. Mai pergunta e ela mesmo responde: “Gooood? Hmmmmm, gooooood!” Já deve ter ouvido essa resposta várias vezes. A textura era crocante e o sabor era tão complexo que resumia num rolinho entrada, prato principal e sobremesa. Passamos a noite comendo como se fosse a última refeição das nossas vidas.

 

mercadotesta

 

Saímos com a promessa de voltar amanhã e depois de amanhã e todos os outros dias. Mas ninguém sabia que seria impossível. Em cada esquina havia um lugar igual ou ainda melhor. Ou, no fundo, não queríamos correr o risco de que a segunda vez não fosse tão surpreendente quanto a primeira. (Marco)

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~ por amnasianow em março 3, 2009.

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