Ar denso

O Camboja tem uma das histórias recentes mais tristes do mundo, e o mundo demorou demais a se dar conta disso. Entre 1975 e 1979, o país foi governado pelo Khmer Vermelho, uma facção que se revelou extremamente violenta por trás de uma fachada ideológica comunista e que foi responsável pelo genocídio de milhares de pessoas – algo entre 1 e 3 milhões, não se sabe ao certo (para se ter uma ideia, o país tem hoje 15 milhões de habitantes).

 

O ano de 1975 foi o chamado “ano zero”, quando os experimentos de Pol Pot, o líder do Khmer Vermelho, tiveram início. O dinheiro foi abolido, as cidades foram evacuadas e todas as pessoas que detinham qualquer tipo de conhecimento ou educação foram executadas. Foi uma revolução sangrenta de utopias agrárias estúpidas que se arrastou por cinco anos, matando sumariamente um número incontável de pessoas, mutilando e deixando o rastro de horror em outras tantas até hoje.

 

Phnom Penh, a capital de 1,5 milhão de habitantes e ruas largas que agora desponta como uma das mais promissoras cidades asiáticas para um futuro próximo, ainda escreve as linhas do seu passado recente na Phlauv (rua) 113, em frente ao número 50, hoje Museu Tuol Sleng. Ali, os edifícios de uma antiga escola secundária foram transformados no mais sangrento quartel-general do Khmer Vermelho, a chamada S-21. As salas, onde os prisioneiros eram proibidos por decreto de chorar durante as sessões de choque elétrico, exibem ao mesmo tempo as camas de ferro, os instrumentos de tortura e os velhos quadros negros. As celas seguem de pé no interior do edifício C. No jardim, a antiga barra de exercícios de educação física adaptada para a tortura ainda mantém os enormes portes de cerâmica onde as vítimas eram mergulhadas para recobrar a consciência. Fotos de centenas de prisioneiros são exibidas nas paredes – alguns sorrindo doce e inocentemente, alguns com olhares que pediam socorro. São eles os donos dos crânios exibidos numa redoma de vidro a 14 quilômetros de distância dali, nos campos de concentração de Choeung Ek, para onde eram levados os prisioneiros da S-21. Uma visita tão desconcertante quanto obrigatória, que faz o caos se transformar em silêncio e o ar parecer, subitamente, mais denso. (Rachel)

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~ por amnasianow em fevereiro 16, 2009.

5 Respostas to “Ar denso”

  1. Amiga, quando morei nos EUA, tive dois amigos da Camboja – órfãos, que foram morar com tios na gringolândia. Lendo seu post, lembrei que nunca os vi sorrindo, nem brincando, nem se divertido. E éramos crianças de 11 anos. Fiquei chocada com seu relato. Beijos.

  2. Nó na garganta…

  3. Fiquei arrepiada……bjo

  4. Nossa, Rach, eu que fiquei sem palavras lendo um contato seu tão próximo com uma realidade tão bruta. É mesmo chocante, amiga.

  5. Mama, Fuco, é das coisas mais tristes do mundo, mas é obrigatório ver de perto esse horror que de longe a gente nem imagina que existe (e pior: que agora mesmo pode estar acontecendo em algum canto do mundo e a gente nem se dá conta).

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