Do mar para a serra

Era pouco mais de uma da tarde e a plataforma da estação de Galle estava inteira de branco. Os estudantes voltavam da aula impecavelmente vestidos num calor de quase 40 graus. Os meninos com gravatas e sapatos duas vezes maiores que os pés. As meninas com vestidos, meias até o joelho e tranças com laços de fita. A cena parecia estar acontecendo uns 50 anos atrás e o barulho era de porta de escola. O primeiro trem chegou e a confusão se desfez em segundos. Os vagões então foram saindo devagar, sacolejando em câmera lenta, levando junto as conversas indecifráveis e os sacos com restos de merenda; só ficou o calor.

 

Nosso trem chegou meia hora depois para uma viagem de sete horas até Kandy, no meio do país e no alto das montanhas. O interior do vagão era de madeira escura e os ventiladores de ferro no teto não faziam mais vento que a janelas abertas. À medida que se afastava da estação, entrava por uma vegetação densa até finalmente encontrar a paisagem que seguiria até Colombo, na metade do caminho. De um lado, uma pequena faixa de areia e o mar a poucos metros; do outro, um verde que de vez em quando revelava algumas casas coloridas. O trem passava tão perto delas que era possível ver a vida lá dentro. Pequenos flashs da intimidade alheia que eram rapidamente cortados por palmeiras.

 

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Do lado de dentro do trem começaram a aparecer os vendedores. Camarão frito, peixe frito, pastéis estranhos, frutas estranhas. Identifiquei uma mexerica na confusão e peguei várias. Diversão garantida. Em Colombo, a capital do país, o trem foi tomado por um mar de pessoas saindo do trabalho. Na falta de espaço, elas se penduravam na porta ou seguiam no teto. Como a visão do lado de dentro se resumia a um amontoado de cabeças, peguei meu saco de mexericas, cruzei os braços do lado de fora da janela e fui vendo o Sri Lanka passar. Palmeiras, pontes de ferro, arrozais alagados, dois monges budistas andando na linha, um grupo de crianças tapando os ouvidos com o apito de trem. Nas curvas, a locomotiva aparecia na frente. O ar úmido começava a esfriar e a luz dourada do fim do dia deixava uma névoa sobre tudo. O cheiro era de óleo diesel, fumaça e mexerica. Minha mão já estava melada, e aos poucos foi ficando preta com a fuligem da fumaça. Nessa altura eu já tinha 8 anos de idade. Na cadeira da frente uma companhia, um menino com camisa amarela e a pele escura de sol. Ia cantando contra o vento, se divertindo com a sua voz jogada pela janela.

 

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O trem então começou a parar nas vilas e as pessoas iam descendo cansadas.  As mexericas tinham acabado. Mas fui salvo pelo vendedor de cocos. Isso: um vendedor de cocos dentro de um trem. O homem vinha com facão e tudo e uma penca de cocos pendurada nas costas. O trem balançava e o homem tentava se equilibrar ao mesmo tempo em que abria os cocos com o facão. Se sacudisse mais um pouco era um esfaqueamento coletivo. O trem já começava a subir a serra lentamente fazendo curvas. Fui para a divisão dos vagões e sentei na porta aberta para o lado de fora. A mata fechada era iluminada pelo farol da locomotiva e pela lua cheia. O trem já ia vazio, e do início da viagem só restavam nós dois. Então desembarcamos no ar frio da estação de Kandy. Eu, Rachel, duas malas e um coco. (Marco)

 

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~ por amnasianow em janeiro 26, 2009.

Uma resposta to “Do mar para a serra”

  1. Ah neeeem, mexerica no trem, sem lugar pra lavar a mao, cheiro de mexerica, trem lotado, mil pessoas, mil lugares e cheiro de mexerica 7 horas depois… Bom pra mim hahahahaha

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