Antes do paraíso, o purgatório

udaipur

 

Entre pagar caro por um táxi numa estrada arriscada e perigosa, enfrentar um ônibus noturno que nem lata de sardinha (com camas esmagadoras em cima das poltronas) ou encarar um mix de trem e ônibus pela manhã, a preço de banana, optamos pela última opção para ir de Bundi a Udaipur, no sul do Rajastão. Chegamos na estação às 9h em ponto – com exatos 36 minutos de antecedência para a partida. Comprar o bilhete foi fácil, rápido e barato (42 rúpias por pessoa, ou menos de 2 reais), difícil foi fazer o tempo passar até que o trem chegasse na plataforma, com quase duas horas de atraso. Mais tarde saberíamos que aquela espera com cheiro de piche queimando (da obra ao lado) não seria nada…

Não sei se fiquei feliz ou triste quando o trem se aproximou. Braços pra fora das grades das janelas denunciavam o calor do lado de dentro, e aparentemente não havia lugar algum vazio (os lugares não eram marcados). Subi os degraus como quem entra voluntariamente numa penitenciária, se perguntando o por quê de estar ali. Havia gente no teto, no chão, nas camas suspensas. Crianças chorando, brincando de videogame, dormindo, comendo, tudo ao mesmo tempo. Encontramos dois lugares nos bancos coletivos ao lado de uma família de Chittorgarh. Depois de ouvir a voz doce da mãe, uma professora de inglês, dizendo que saíram de Chennai, no sul da Índia, três dias antes, começamos a relaxar. Teríamos só três horas ali, e eles definitivamente não aparentavam a eminência de um ataque cardíaco depois de tantas horas.

O trem rompia com longos apitos a secura do Rajastão em paisagens monótonas, só quebradas vez ou outra pelos vultos coloridos dos sáris vagando no meio do nada. Falamos de futebol, Pelé e da não localização do Brasil na Europa. A avó, que não tinha dentes e só falava hindi (eliminando assim, por um motivo ou por outro, qualquer possibilidade de comunicação), passou a mão curiosíssima no meu piercing do nariz, esfregou a minha tatuagem do braço e então deitou e dormiu do meu lado, com o longo cabelo branco preso num coque com grampos. Os minutos ficavam cada vez mais longos.

Da estação de Chittorgarh pegamos um tuk tuk rumo à rodoviária da cidade para finalmente entrar num dos “ótimos ônibus” (como havia sido recomendado) que fariam o percurso final de duas horas. Acho que desta vez eu fiquei mais triste do que feliz de ter chegado ali. Num pátio empoeirado haviam seis ônibus coloridos  e gastos, com aspecto de pau de arara – e com a velocidade com que as pessoas montavam neles, certamente seriam. Me certifiquei de que eram esses mesmo que seguiam para Udaipur e em semi-pânico ouvi que sim. Por 75 rúpias (cerca de 3 reais) subimos a bordo do “Expresso 2023”, que seria conduzido por um motorista de cabelo acaju acomodado ao lado de um altar de Shiva montado no painel, com direito a colares de flores e papel laminado colorido.

Paramos umas cem vezes no caminho, com o cobrador em pé na porta emitindo um som que só depois da 50ª vez eu entendi que era o nome do nosso destino. Entrava gente pelo ladrão, e numa certa hora tinha passageiro sentado na caixa de marcha. O motorista parou para comprar um saco do que parecia ser jabuticaba. E nesse meio tempo eu tive mais uma oportunidade de conviver com a doçura do indiano. Bharati Suvalka, uma morena de trança de 18 anos que seguiu viagem sentada ao meu lado, me contou do curso de engenharia que acabava de começar (e que a obrigava a morar longe da família), da vontade de viajar o mundo (“mas só depois de concluir o mestrado”), do desejo de se casar – ainda que os casamentos sejam arranjados até hoje, segundo ela mesma me confirmou (“tem que ser assim, então melhor que seja com um sorriso”). Me deu seu celular e seu email e me convidou insistentemente para o casamento da irmã no domingo seguinte, seguido pelo seu aniversário de 19 anos –  “Pleeeeease, go!”, repetia ela. E me disse de repente: “Foi o destino que fez a gente se encontrar. Eu ia pegar o ônibus das 13h, mas fui visitar o forte e me atrasei. Estava triste de ir embora, mas essa foi a melhor viagem. Ganhei uma nova amiga.” Eu também, Bharati. E foi nela que eu pensei naquele fim de tarde numa varanda debruçada sobre o lago, com uma vista espetacular do palácio do marajá de Udaipur, enquanto o sol se escondia. Eu já havia chegado. E todo aquele perrengue, naquele instante, pareceu nada. (Rachel)

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~ por amnasianow em novembro 19, 2008.

10 Respostas to “Antes do paraíso, o purgatório”

  1. Olá Quel e Marco,voces realmente tinham que pensar em mim nesse por do sol!!!!!!!!E fiquei feliz!!Beijos

  2. Geeeente que menina fooofa!!! Saudade dos dois!!! Bjos do tio pim e joulis

  3. Amiiiiiiiiiiiga! Diga a Bharati que você eu também sou sua amiga!! Que lugar lindo. Saudades e beijos.

  4. Chorei… que bunitinha Bharati gente… Whole Summer family… hehe

  5. Amiiiigos!! Meus olhos encheram de lagrimas. Q historia liiiinda! Vcs escrevem bem demais, as fotos sao lindas demais! Estou adorando segui-los assim pelas suas aventuras. Obrigada por compartilhar! 😉 Tenho muita saudade tb de vcs viu! Depois, pensem num esquema desse mas para cobrir a Terra Canadensis! Hahaha!!!
    Um beijo gigante pra vcs, tudo de bom e maravilhoso!

  6. Summer Family, que saudades!!!

  7. Rach, amiga!!! Vou falar pra ela, ararara. Que bom vc sempre aqui! beijao, saudades tb!

  8. Minu! Nossa, nem acredito, quanto tempo! Que saudades! Estamos sempre pensando em vc e em quanto vc faz falta. Que surpresa otima! 😉 Um super beijo.

  9. Que linda essa texto, e como vcs descrevem bem a viagem! Um beijo!

  10. ups, escrevi linda… era pra ser lindo…hehehe

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