Festa de criança é fogo

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Dois dias depois do casamento, o dono da pousada apareceu com outro convite irrecusável. Uma cerimônia tradicional do Ladakh onde a família apresenta o filho mais novo à comunidade. Uma grande festa com muita dança, bebida e comida. Dissemos que sim antes dele terminar a explicação e algumas horas depois ele nos deixou na porta. Fomos recebidos por um senhor velhinho, vestido como um monge, pele enrugada e queimada de sol, não parava de rir. Ele foi nos guiando, andava na frente e sempre olhava para trás como se tivesse nos encorajando. No pátio da casa, entramos numa espécie de lona de circo armada para o evento. Fomos colocados no fundo ao lado de um grupo de pessoas que se vestia diferente, todos de capote marrom. Na minha cabeça ficou claro que era o lugar reservado aos estranhos e penetras, mas ainda não sabia que na verdade eram os donos da casa.

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A música começou a tocar e um grupo de senhoras organizou uma dança lenta, que girava em torno dos presentes oferecidos pelos convidados. Fui para o lado dos músicos e comecei a fotografar. Alguns minutos depois surge o nosso amigo velhinho sorridente com uma tigela na mão cheia de uma bebida estranha. Era uma cerveja caseira com várias sementes boiando e um aspecto de água de pano de chão. Agachou na minha frente e me ofereceu. Não parava de rir. Um grupo atrás observava a cena. A sociedade do Ladakh estava de olho. Dei um primeiro gole devagar para estudar o terreno. A bebida nem era má, um gosto meio avinagrado, seco, e seguramente não era inofensiva. Com a palma da mão voltada para cima ele fazia um gesto como se quisesse empurrar a tigela pela minha garganta. Entendi que era para deixar de frescura e virar logo de uma vez. Para não decepcionar o anfitrião, virei sem respirar. Ele continuou rindo e encheu de novo a tigela. Esvaziei mais uma. Ele não parecia satisfeito e repetiu a dose e o gesto com as mãos. Procurei a Rachel com os olhos para me salvar, tirar o velhinho dali, ou pelo menos dividir a bebida comigo. Mas ela estava do outro lado da lona fazendo uma lambança com os dedos enfiados num prato de arroz e castanhas (como no resto do país, aqui se come as mãos). Sem salvação, virei pela terceira vez. O sorriso dele já começava a me assustar. Quando ele encheu mais uma tigela, tentei mudar a estratégia e bebi só um pouquinho, como se quisesse aproveitar mais o sabor. Ele fez cara de que não tinha problema e completou o pouco que tinha abaixado. Nem na hora e nem depois eu entendi onde aquilo ía parar se não fosse a música acabar e alguém puxar o velhinho para outra função.

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Era o almoço que já estava sendo servido. Um prato gigante, alto, com arroz, ovo cozido empanado, uma espécie de feijão e um molho que parecia pegar fogo. Tentei ganhar mais um tempo por ali tentando acalmar meu estômago, que nessa altura já não entendia mais nada, e assim evitava o almoço. Como tinha ficado provado, recusar o prato estava fora de questão. Não adiantou muita coisa. Quando encontrei a Rachel, ela estava com o pessoal da casa e tinha um prato na mão. “Peguei pra você, já pararam de servir. Cuidado com o feijãozinho que tem muita pimenta.”

Se fosse só o feijãozinho… (Marco)

 

PS: por completa falta de organização não separei as fotos desta cerimônia das outras do casamento no Flickr – são as últimas sete do set “Festas do Ladakh”

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~ por amnasianow em novembro 11, 2008.

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