A gente ainda não viu nada

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Quando tentamos pagar o motorista do hotel que nos buscou no aeroporto, fomos informados que teríamos que passar no escritório da empresa no dia seguinte para fazer o pagamento diretamente ao seu chefe (a coisa era terceirizada). Quando ele aproveitaria a ocasião para entregar alguns mapas e propor alguns passeios. Ou seja, cilada com local e hora marcada. O encontro ficou para as dez horas da manhã, mas ignoramos solenemente e acordamos lá pelas 3 da tarde. Chegando na recepção o atendente muito simpático disse “no problem” e por telefone chamou um motorista que nos levou diretamente ao tal escritório. Estávamos cercados. Mas já que era inevitável, podíamos pelo menos aproveitar para comprar as passagens de trem de Délhi para Pushkar, onde acontece a maior feira de camelos do mundo acompanhada de uma festa que eram as razões para estar na India nessa época. Entramos na salinha como um boi que entra no matadouro. Pagamos o transfer e perguntamos com firmeza se poderíamos comprar as passagens ali. Claro que podíamos, e claro que seria mais caro. Ele até preferiria que fossem 20 passagens. Depois de consultar o computador, o atendente foi direto: o preço era tanto, mas não havia passagens naquele dia, nem durante aquela semana, muito provavelmente pelo movimento da feira na cidade. Mas nem tudo estava perdido: poderíamos ir de táxi. E melhor: poderíamos passar por Agra e Jaipur pelo caminho. E melhor ainda: ele tinha tudo isso para nos vender. A situação começou a ficar esquisita.

Era difícil acreditar que o escovinha ali na frente seria capaz de uma atrocidade dessa: dizer que não havia mais passagens de trem, o que mudaria todo o roteiro, para tentar vender um pacotinho básico até Pushkar. Era muita cara de pau, principalmente para quem supostamente acredita no karma. Resolvemos bancar e tentar fazer o cara voltar como pedra de lareira na próxima encarnação. Não fechamos nada e saímos dali direto pra estação. Naquela altura já desconfiávamos de tudo.

Na entrada da estação fomos abordados por um homem que nos exigia o bilhete para passar daquele ponto. Quando dissemos que na verdade queríamos comprar o bilhete, ele disse que nos levaria até lá. Deixamos ele falando sozinho enquanto outro indiano nos seguia advertindo que o homem era mesmo um agente oficial. Mudamos a direção e entramos rápido num outro edifício da estação. O saguão estava lotado. Uma massa uniforme de malas, sacos, caixas e pessoas que olhavam fixamente para o painel de horários como se fosse uma televisão. Parecia que Délhi seria evacuada naquele dia. Atrás do painel uma placa indicava o Internationl Tourist Bureau, o balcão oficial para os estrangeiros comprarem as passagens sem acessos de serial killers. Lá pegamos a primeira fila indiana da viagem, que inexplicavelmente era sentada.

Poucos minutos e chegou a nossa vez. Perguntamos ao atendente sobre as passagens (já começávamos a achar que tínhamos exagerado naquilo tudo, que homem lá embaixo era mesmo oficial e o engomadinho da agência não ia mentir assim. Como pudemos ser tão desconfiados e paranóicos…). Mas nem houve tempo para suspense. Havia passagem para aquele dia, para aquela semana e para todo o sempre. Pela metade do preço da agência conseguimos comprar os bilhetes que não existiam.

A autoconfiança melhorou tanto que resolvemos voltar a pé da estação, sem mapa, saltando por cima dos vendedores ambulantes e atravessando as ruas de Délhi no melhor estilo Frog (o videogame).

E foi assim o nosso primeiro dia na India. Agora só faltam os outros 364 do resto da viagem. (Marco)

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~ por amnasianow em novembro 1, 2008.

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